IBM e a corrida da IA: por que a ação caiu 25% em um dia e o que isso ensina
Em 14/07/2026 a IBM teve o pior dia dos seus 115 anos na bolsa. A IA atingiu a empresa de dois jeitos: como concorrente (COBOL e Claude Code) e como ralo do orçamento dos clientes. Os números, o contexto e a lição para qualquer negócio.

Em 14 de julho de 2026, a ação da IBM caiu 25,2% na Bolsa de Nova York: fechou a US$ 217,07, contra US$ 290,23 na véspera. Foi o pior dia dos 115 anos da empresa, pior até que a Black Monday de 1987, e levou embora cerca de US$ 68 bilhões em valor de mercado em um único pregão. Não foi um susto isolado: em fevereiro e em abril a ação já tinha levado outros dois tombos, e os três têm a mesma origem, a corrida da inteligência artificial.
Este texto conta o que aconteceu com a IBM em 2026, com os números conferidos em 18/10/2026, e tenta responder a pergunta que fica no ar: uma empresa gigante consegue se manter no mercado no meio dessa corrida? A IBM divulga o balanço do terceiro trimestre na quarta-feira, 21/10, depois do fechamento da bolsa.
Resumo: o ano da IBM em datas
| Data | O que aconteceu | Ação no dia |
|---|---|---|
| 23/02 | A Anthropic mostra o Claude Code modernizando sistemas em COBOL | −13,1% (maior queda desde 2000) |
| 23/04 | Balanço do 1º trimestre com software mais fraco | −8,3% |
| 02/06 | Recorde, puxado por US$ 1 bilhão do governo americano para computação quântica | US$ 329,23 no fechamento |
| 14/07 | Prévia do 2º trimestre abaixo do esperado | −25,2% (pior dia da história) |
| 16/10 | Último fechamento antes deste texto | US$ 232,14 (−30% desde o recorde) |
Antes: quem é a IBM
A IBM não inventou o computador. O primeiro computador eletrônico de uso geral, o ENIAC, foi construído em 1945 na Universidade da Pensilvânia. O papel da IBM foi outro, e para os negócios talvez mais importante: levar o computador para dentro das empresas e, depois, para a mesa de todo mundo.
Ela nasceu em 1911 como CTR, uma fabricante de máquinas de cartão perfurado, e passou a se chamar International Business Machines em 1924. Em 1964 lançou o System/360, a família de computadores que padronizou a informática nas empresas. Em 1981 veio o IBM PC, cujo padrão os computadores pessoais seguem até hoje. Em 1997 o Deep Blue venceu o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, e em 2011 o Watson ganhou dos campeões do programa de perguntas Jeopardy, ao vivo na TV americana. O apelido, até hoje, é Big Blue.

Ou seja: é uma empresa que já mudou de produto principal várias vezes. Guarde isso, porque é a parte mais importante da história.
Golpe 1 (fevereiro): a IA virou concorrente
Muito do dinheiro dos bancos, das operadoras de cartão e das seguradoras ainda passa por programas escritos em COBOL, uma linguagem criada em 1959. Esses sistemas rodam, em grande parte, nos mainframes da IBM, e modernizar esse código sempre foi um trabalho caro, lento e lucrativo para quem sabe fazer. A IBM é uma das empresas que mais ganham com isso, vendendo máquinas, software e consultoria.
Em 23 de fevereiro, a Anthropic publicou um texto mostrando o Claude Code, seu agente de programação, lendo, documentando e reescrevendo sistemas em COBOL. A promessa era modernizar esse código “em trimestres, e não em anos”. O mercado leu a notícia como uma ameaça direta a um negócio que parecia protegido pela dificuldade: se a IA faz em meses o que levava anos, sobra menos trabalho para vender.
A ação da IBM caiu 13,1% naquele dia, a maior queda em um pregão desde outubro de 2000. Somando as três semanas desde o fim de janeiro, a perda chegou a 27%. Outras empresas de software e tecnologia caíram junto, pelo mesmo medo: o de que agentes de IA automatizem o trabalho pelo qual elas cobram.
Abril e junho: tropeço e recorde
Em 23 de abril, o balanço do primeiro trimestre mostrou crescimento mais lento, com o software abaixo do esperado, e a ação caiu mais 8,3%. Depois, a história virou: no fim de maio a IBM recebeu US$ 1 bilhão do governo americano para uma fábrica de chips de computação quântica, anunciou mais de US$ 10 bilhões em investimento na área em cinco anos, e a ação subiu mais de 40% em poucas semanas. Em 2 de junho fechou a US$ 329,23, o maior valor da história.
Durou pouco.
Golpe 2 (julho): a IA virou ralo do orçamento
Em 14 de julho, a IBM antecipou números do segundo trimestre bem abaixo do esperado. O motivo surpreendeu, porque não foi a IA tomando o lugar da IBM. Foi a IA tomando o dinheiro dos clientes da IBM.
Desde o fim de 2025, os fabricantes de chips de memória passaram a produzir para os centros de dados de inteligência artificial, a capacidade de 2026 foi vendida em contratos longos e o preço da memória e dos servidores disparou. As empresas correram para comprar servidores, armazenamento e memória antes de novos aumentos e adiaram o resto, incluindo os novos mainframes da IBM. No trimestre, as vendas da linha IBM Z caíram 42%.

O presidente da IBM, Arvind Krishna, foi direto na carta aos investidores: “This quarter we faltered” (“Neste trimestre, vacilamos”). E admitiu que a empresa não previu o tamanho da mudança nos investimentos dos clientes, e que vários contratos grandes não foram fechados no prazo esperado.

A ação caiu 25,2% e arrastou o setor de software: Salesforce, Microsoft, ServiceNow e Intuit também fecharam em queda, enquanto o índice Nasdaq 100 subiu no mesmo dia. Em 22 de julho, a ação marcou o fechamento mais baixo do ano, US$ 205,77.
O que a manchete não conta: não é falência
“Pior dia da história” assusta, mas o resultado oficial do segundo trimestre, publicado em 22/07 na SEC (a CVM americana), mostra uma empresa que ainda cresce:
| 2º trimestre de 2026 | Valor | Contra 2025 |
|---|---|---|
| Receita total | US$ 17,2 bilhões | +1% |
| Software | US$ 7,8 bilhões | +5% |
| Red Hat | dentro do software | +11% |
| Consultoria | US$ 5,3 bilhões | estável |
| Infraestrutura | US$ 3,8 bilhões | −7% |
| Mainframes (IBM Z) | dentro da infraestrutura | −42% |
Para o ano, a IBM passou a esperar crescimento de 4% a 5% na receita, em moeda constante. Em 16/10, a empresa valia cerca de US$ 219 bilhões. O problema da IBM não é estar mal. É crescer devagar enquanto o dinheiro do mercado corre para outro lado.
Para onde foi o dinheiro
No mesmo 16 de outubro, a Nvidia, que vende os chips que movem a IA, valia US$ 5,17 trilhões. É o equivalente a 23,6 IBMs. A corrida da IA não tirou o dinheiro do mercado de tecnologia: mudou o endereço dele. Quem vende pás na corrida do ouro (chips, memória, servidores) está levando a maior parte agora, e quem vende o que vem depois (software, consultoria, máquinas para sistemas antigos) espera na fila.
A IBM já quase morreu uma vez
Não é a primeira vez que a IBM fica para trás. No começo dos anos 1990, os computadores pessoais e os servidores menores derrubaram as vendas de mainframes. A empresa perdeu US$ 4,97 bilhões em 1992 e, no segundo trimestre de 1993, US$ 8 bilhões em um único trimestre, um recorde para uma empresa americana na época.
Lou Gerstner assumiu em abril de 1993, desistiu da ideia de quebrar a IBM em pedaços e mudou o centro do negócio: de vender máquinas para vender serviços e soluções completas. O valor de mercado da empresa foi de cerca de US$ 29 bilhões em 1993 para US$ 168 bilhões em 2002, quando ele saiu. Depois, a IBM vendeu a divisão de computadores pessoais para a chinesa Lenovo (2005) e comprou a Red Hat por US$ 34 bilhões (2019), que hoje é uma das partes que mais crescem.

O contraponto: a Kodak
A Kodak é o exemplo que todo mundo cita, e com razão. Um engenheiro da própria Kodak, Steven Sasson, criou a primeira câmera digital em 1975. A empresa tinha a invenção nas mãos, mas preferiu proteger o negócio do filme fotográfico, que dava muito lucro. Quando a fotografia digital tomou conta, a Kodak não tinha se transformado a tempo e pediu recuperação judicial em janeiro de 2012.

A diferença entre as duas histórias não é o tamanho nem a tecnologia. A Kodak tinha a tecnologia certa. A IBM dos anos 90 estava em situação pior. O que separou uma da outra foi a disposição de mudar o próprio negócio antes que fosse tarde.
Então, grande empresa sobrevive?
Sobrevive quem muda antes de ser obrigado. Tamanho não protege: ele dá fôlego para errar por mais tempo, mas também deixa a mudança mais lenta. O que protege é a velocidade de perceber para onde o cliente está levando o dinheiro e ir junto.
E isso vale para qualquer tamanho de negócio. Três perguntas para fazer sobre o seu:
- Para onde o seu cliente está levando o dinheiro agora? A IBM perdeu vendas não porque o cliente ficou sem dinheiro, mas porque ele passou a gastar com outra coisa. Vale olhar o que os seus clientes estão priorizando neste ano.
- O que você cobra que a IA já faz de graça? O COBOL era uma proteção porque era difícil. Quando a IA deixou o difícil mais fácil, a proteção diminuiu. Que parte do seu serviço depende só de ser trabalhosa?
- Você muda em trimestres ou em anos? A promessa da Anthropic foi “em trimestres, e não em anos”. Se o seu concorrente consegue mudar nesse ritmo, o seu negócio precisa acompanhar.
Nenhuma dessas perguntas pede uma revolução. Pedem atenção: um site que mostra o que você faz hoje (e não o que fazia há três anos), um atendimento que responde rápido e a disposição de testar o novo antes de precisar dele.
O que observar no balanço de 21/10
A IBM divulga o resultado do terceiro trimestre na quarta-feira, 21/10, depois do fechamento da bolsa de Nova York. Segundo o consenso compilado pela MarketBeat, os analistas esperam lucro de US$ 2,87 por ação e receita de US$ 16,84 bilhões. Os pontos que dizem se a história muda: se o software (principalmente a Red Hat) continua crescendo, se as vendas de mainframe voltam com a normalização da memória e se a empresa mantém a previsão de 4% a 5% para o ano.
Este texto é informativo e não é recomendação de investimento.
Perguntas frequentes
Por que a ação da IBM caiu 25% em julho de 2026?
Porque a prévia do segundo trimestre veio abaixo do esperado: os clientes desviaram o orçamento para servidores e memória para IA, que estão faltando e subindo de preço, e adiaram compras da IBM. As vendas de mainframe caíram 42%.
O que o Claude Code tem a ver com a IBM?
Em fevereiro, a Anthropic mostrou o Claude Code modernizando sistemas em COBOL, linguagem que roda em grande parte nos mainframes da IBM. O mercado entendeu que a IA pode reduzir um trabalho caro do qual a IBM vive, e a ação caiu 13% no dia.
A IBM está quebrando?
Não. No segundo trimestre a receita cresceu 1%, o software 5% e a Red Hat 11%, e a empresa valia cerca de US$ 219 bilhões em outubro. O problema é o ritmo de crescimento, não a saúde financeira.
A IBM inventou o computador?
Não. O primeiro computador eletrônico de uso geral foi o ENIAC, de 1945. A IBM levou o computador para as empresas (System/360, 1964) e criou o padrão do computador pessoal (IBM PC, 1981).
Fontes
- Preços diários da ação: Yahoo Finance (consulta em 18/10/2026).
- Resultado do 2º trimestre e previsão do ano: comunicado oficial da IBM na SEC, 22/07/2026.
- Queda de 14/07 e carta de Arvind Krishna: Yahoo Finance e Bloomberg Línea.
- Queda de 23/02 (Claude Code e COBOL): CIO e Forbes Brasil.
- Recorde de junho e computação quântica: TIKR.
- Valor de mercado da IBM e da Nvidia em 16/10: companiesmarketcap.com.
- Prejuízos de 1992 e 1993: UPI e Tampa Bay Times.
- Gerstner e a virada da IBM: Knowledge at Wharton.
- Data e consenso do balanço do 3º trimestre: IBM Investor Relations e MarketBeat.

Sobre a Lee Sugano
Lee Sugano
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